Hoje, vou deixar neste blog um ensaio poético escrito por mim há muito, muito tempo atrás...
A NOITE DOS DOIDIVANAS
A noite vai se agigantando lá fora. Está um pouco frio também. O inverno já devia ter levado as malas, mas, ao que parece, ele não quer nos largar assim tão fácil.
Por entre as sombras das ruas, embaixo das luzes dos postes testemunhas, passeiam vultos gritantes. Passeiam como se a vida ainda estivesse desejando algo mais. Vultos disformes, corujas rabujentas, pessoas desligadas, justificando seu prazer em gritos noturnos.
A noite ainda está em seu começo. A escuridão não é só o oposto da luz, mas um contraste sibilino para a minha mente. Uma oposição filosófica terrível. Algo que não se pode definir justamente em palavras. Afinal, a distinção entre os dois lados de uma mesma moeda só é feita através da contravenção de uma lei da física. Seria, então, inaceitável uma explicação delongada para isto.
Aqui, entre quatro paredes, estou protegido das insanidades. Meto meus fantasmas no armário, dependuro meus horrores no guarda-roupa, amasso meus medos e lanço-os fora. E, no outro dia bem cedo, vou ao armário, depois ao guarda-roupa e depois ao lixo para recolher os cacos desta personalidade normal.
Uma leve dor de cabeça me acomete neste momento. Penso em várias coisas e não decido em que pensar primeiro. Talvez pense no sábado de manhã ou a tarde deste sábado ou mesmo a noite de sábado, que nada tem dos “Embalos de Sábado à noite”. Talvez pense no livro que tenho que ler amanhã, talvez não pense em nada. Talvez o talvez seja apenas mais um talvez entre tantos outros em minha vida.
Os vultos ainda perambulam rua afora. Ainda gritam algumas coisas estranhas, cantam outras músicas exóticas, incompreensíveis... descem a passos bêbados, trôpegos, banhados na cerveja ou na aguardente “de sabão” de algum boteco copo-sujo qualquer. Provavelmente, mandaram pendurar na conta e o maço de débito se avoluma na gaveta vazia do botequeiro. E na parede está escrito “Não vendo fiado”. Coitado deste que agüenta choradeiras de angustiados, resmungos de depressivos, reclamações de maníacos ou conversas bestas de pessoas vazias.
O boteco é um universo único. A noite é o seu mundo. Um macrocosmo impressionante onde se reúnem todos os seres problemáticos deste planeta. Cada qual com seus problemas, suas neuroses, suas ilusões, seus amores, seus mesmos copos, suas cadeiras, mesas e seus tira-gostos mergulhados na gordura meio-endurecida. Ninguém reclama se o copo foi usado, se o prato foi mal lavado, se a cadeira está com um pingo de gordura ou se a mesa está com poeira. Todos em uma completa confraria pela bebedeira esperam a noite crescer, crescer e crescer em uma narcose alcoólica para esquecer de suas vidas à luz.
A noite vai se agigantando cada vez mais lá fora. Por entre as sombras das árvores que vejo, embaixo das luzes dos postes, testemunhas oculares, passeiam vultos da grita. Passeiam como se a vida ainda não fosse algo mais. Vultos disformes aparecem e desaparecem, corujas rabujentas, pessoas largadas, justificando seu prazer em gritos de dores noturnas.
Corpos vestidos de noite ocultam as mais tênues características humanas. A fragilidade e a solidão. São perseguidos de perto por elas e abraçados uns aos outros mergulham ladeira abaixo procurando abrigo nos vãos.
Filosofia de vida: a vida é bem melhor assim, se fôssemos eternos, seríamos as pessoas mais chatas deste universo imenso.
A NOITE DOS DOIDIVANAS
A noite vai se agigantando lá fora. Está um pouco frio também. O inverno já devia ter levado as malas, mas, ao que parece, ele não quer nos largar assim tão fácil.
Por entre as sombras das ruas, embaixo das luzes dos postes testemunhas, passeiam vultos gritantes. Passeiam como se a vida ainda estivesse desejando algo mais. Vultos disformes, corujas rabujentas, pessoas desligadas, justificando seu prazer em gritos noturnos.
A noite ainda está em seu começo. A escuridão não é só o oposto da luz, mas um contraste sibilino para a minha mente. Uma oposição filosófica terrível. Algo que não se pode definir justamente em palavras. Afinal, a distinção entre os dois lados de uma mesma moeda só é feita através da contravenção de uma lei da física. Seria, então, inaceitável uma explicação delongada para isto.
Aqui, entre quatro paredes, estou protegido das insanidades. Meto meus fantasmas no armário, dependuro meus horrores no guarda-roupa, amasso meus medos e lanço-os fora. E, no outro dia bem cedo, vou ao armário, depois ao guarda-roupa e depois ao lixo para recolher os cacos desta personalidade normal.
Uma leve dor de cabeça me acomete neste momento. Penso em várias coisas e não decido em que pensar primeiro. Talvez pense no sábado de manhã ou a tarde deste sábado ou mesmo a noite de sábado, que nada tem dos “Embalos de Sábado à noite”. Talvez pense no livro que tenho que ler amanhã, talvez não pense em nada. Talvez o talvez seja apenas mais um talvez entre tantos outros em minha vida.
Os vultos ainda perambulam rua afora. Ainda gritam algumas coisas estranhas, cantam outras músicas exóticas, incompreensíveis... descem a passos bêbados, trôpegos, banhados na cerveja ou na aguardente “de sabão” de algum boteco copo-sujo qualquer. Provavelmente, mandaram pendurar na conta e o maço de débito se avoluma na gaveta vazia do botequeiro. E na parede está escrito “Não vendo fiado”. Coitado deste que agüenta choradeiras de angustiados, resmungos de depressivos, reclamações de maníacos ou conversas bestas de pessoas vazias.
O boteco é um universo único. A noite é o seu mundo. Um macrocosmo impressionante onde se reúnem todos os seres problemáticos deste planeta. Cada qual com seus problemas, suas neuroses, suas ilusões, seus amores, seus mesmos copos, suas cadeiras, mesas e seus tira-gostos mergulhados na gordura meio-endurecida. Ninguém reclama se o copo foi usado, se o prato foi mal lavado, se a cadeira está com um pingo de gordura ou se a mesa está com poeira. Todos em uma completa confraria pela bebedeira esperam a noite crescer, crescer e crescer em uma narcose alcoólica para esquecer de suas vidas à luz.
A noite vai se agigantando cada vez mais lá fora. Por entre as sombras das árvores que vejo, embaixo das luzes dos postes, testemunhas oculares, passeiam vultos da grita. Passeiam como se a vida ainda não fosse algo mais. Vultos disformes aparecem e desaparecem, corujas rabujentas, pessoas largadas, justificando seu prazer em gritos de dores noturnas.
Corpos vestidos de noite ocultam as mais tênues características humanas. A fragilidade e a solidão. São perseguidos de perto por elas e abraçados uns aos outros mergulham ladeira abaixo procurando abrigo nos vãos.
Filosofia de vida: a vida é bem melhor assim, se fôssemos eternos, seríamos as pessoas mais chatas deste universo imenso.


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