quinta-feira, 7 de maio de 2009

Um conto do meu livro

A MAQUIAGEM

Naquele dia ela se preparava com mais atenção. Atenção redobrada. Sentia que algo iria acontecer em sua vida, um acontecimento que mudaria tudo. Não sabia dizer em palavras o que era, mas era mais forte do tudo que sentira antes. Como sentia, se olhava no espelho com ternura e alegria.

“Maria Ângela”... pronunciava seu nome diante do espelho. “Hoje será seu dia”. Sábado à noite, festa para ir e possibilidades de um relacionamento para alguém solitário, neste caso, solitária. Sempre foi infeliz em todos os relacionamentos. Seus namorados sempre foram canalhas e estava um pouco depressiva e desiludida. Não saía mais e preferia ficar em seu apartamento após o trabalho assistindo televisão e lendo livros românticos.

Sua imaginação a levava a outros mundos de fantasias incomuns. Sempre sonhava e ria-se diante de sua inocência. Inocência que a fazia sofrer. Já passara dos trinta e nada... Sempre infeliz...

Tentou a internet. Perdeu sua poupança para um vigarista explorador de mulheres solitárias. Tentou com um amigo do serviço, era casado e tinha outras três amantes. Tentou em família, um primo distante, porém era alcoólatra e violento. A lista não era muito grande, entretanto a seqüência de decepções era grande e cada vez maior. Por fim, perdia as esperanças...

Maquiagem para disfarçar suas mágoas. Uma base para esconder sua face triste, um blush para denotar a sensualidade, um batom para atiçar as fantasias, o rímel, etc... não esquecera de nada. Por fim, o perfume certo. O toque mágico para deleitar os homens com sua beleza...

“Maria Ângela, hoje você vai arrasar!” olhando seu reflexo profundamente no espelho dizia. Na verdade queria gritar, mas se conteve. Estava linda. O espelho não mentiria, não é? Continuou com seus cabelos ruivos. Penteou-os de lado, depois para trás. Fazia poses e verificava qual seria mais agradável e sensual. Sempre gostara de seus cabelos, e detestava seu nariz. Achava-o muito fino. Sua mãe dizia que o nariz era do pai e os cabelos da avó. Como gostava muito da avó, achava que era um presente dela.

Estava ansiosa, mal conseguia esperar a hora para sair. Sua ansiedade era tão singular: manuseava o controle remoto em sinal de descaso com a tela desligada de seu aparelho de televisão. Sua imagem se refletia na tela escura e se sentia maravilhosa. Estava viva e cheia de sensações interessantes. Queria desfrutar daquelas sensações uma a uma sem perdê-las na confusão de seus pensamentos. Queria sentir-se viva novamente.

Pegou a bolsa e vasculhou-a novamente. Era a quarta vez que fazia isto em dez minutos. Conferiu item por item. Não esquecera nada até agora. Pegou sua carteira e se olhou no pequeno espelho que lá existia. Verificou o batom, apertou os lábios... olhou fixamente para os olhos, o penteado, tudo... Estava tudo no lugar. Continuava maravilhosa.

Após duas horas de incansáveis conferências sua ansiedade foi mitigada pelo telefone que soou. Sua amiga Joana ligava dizendo que estaria na porta do prédio em quinze minutos. Balançou a cabeça excitada e pronunciou um vocábulo afirmativo. Algo quase ininteligível, mas compreensível em tal situação de emoção.

O tempo não passa quando estamos ansiosos. A vida parece parar quando esperamos algo com insistência. O mundo se move de modo vagaroso e as nuvens no céu parecem nem se incomodar com o balançar calmo das árvores diante do vento vigoroso que as sopra. Você parece a única coisa que se move depressa dentro da ânsia. Nada mais acompanha seu ritmo e sua vontade é parar e agarrar o mundo pelo pescoço e dizer “Anda rápido que eu quero chegar lá!” E, de nada adianta, ele nem se incomoda. Só você, está só...

Joana parou seu carro e ligou mais uma vez para o celular. Parecia uma eternidade para Maria Ângela e finalmente o momento chegou. Iria para a tão badalada festa... Saiu pela portaria e recebeu um caloroso boa noite do porteiro. Devolveu-o no mesmo tom e entrou no carro de Joana. Seguiram.

A festa estava movimentada. Muitas pessoas conhecidas e desconhecidas dividiam o mesmo espaço. Muitos murmúrios se misturavam ao som mecânico que tocava no salão. Os sons se completavam num capricho espontâneo de uma festa, como outra qualquer. Maria Ângela olhava inquieta para todos os lados, reconhecendo um aqui, outra ali. Eram amigos e amigas do trabalho e convidados. Era nos convidados que parava o olhar vacilante.

Platonismo inicial, uma observação demorada e encontrava um olhar cruzado. Pensou, observou novamente. Estava despertando interesse. Sentiu-se desejada.

Pediu uma bebida leve ao garçom. Um martini com cereja. Serviu-se daquela bebida doce e disfarçava sua curiosidade. Como era um convidado, perguntou discretamente para Joana se o conhecia. Joana balançou a cabeça negativamente. A curiosidade aumentava junto com sua timidez. Pensou em ir ao banheiro.

No banheiro, um retoque no batom e mais uma olhadinha no espelho. Fez cara de mulher fatal e saiu decidida a avançar um pouco mais. Ele não estava mais lá. Havia evaporado. Percorreu os olhos em torno da festa e no meio das pessoas não conseguiu identificá-lo. Olhou para sua mesa e Joana também não estava. Somente sua taça de martini esperava para mais um gole.

Pensou muitas coisas naquele momento. Pegou a bolsa e vasculhou até achar um pequeno espelho que servia de acessório da própria. Olhou-se e tentou identificar alguma coisa. Pensava que não tinha agradado pela sua aparência. O que ele não havia visto nela? Ou, o que ele viu que não gostou? Seu nariz, ela tinha certeza de que seu nariz não o agradara. “Maldito nariz!”, pensava ela decepcionada. A festa havia acabado naquela noite numa grande decepção. “Onde estaria Joana agora? Com ele, talvez. Ela é muito mais bonita...”

Maria Ângela, um anjo incompreendido ou que não se compreendia. Olhava-se nos espelhos do salão de modo terno, leve e embriagada pelas doses de martini, vodca e uísque que tomara. Jurava que se seu nariz não fosse daquele jeito não estaria só. Nem com a maquiagem conseguiu desfazer aquela imperfeição da natureza. “Maldita herança!” Palavras sem sentido... quadro grotesco... Desceu as escadas, tropeçando no vazio e pisando de leve no ar. Caiu... batendo o rosto na vidraça da janela ao lado da escada...

No hospital, a reconstituição de seu nariz não foi perfeita, pois parte dele se perdeu... Maria Ângela chorou, não de tristeza, mas de alegria por ter se livrado daquela imperfeição, embora agora fosse... um... pouco...

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