segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Mais um conto do meu livro

A VIDA ÀS AVESSAS

“Quem sou eu?” A voz trêmula sussurrava na minha cabeça. Meu rosto molhado e aquela imagem desconhecida no espelho enquanto lavava. As gotas que dele escorriam eram mais familiares do que aquela fisionomia estranha. Tentei um sorriso, uma forma de tentar reconhecê-lo, mas a cabeça doía. Talvez mais tarde... Mas, a pergunta era: Quem é ele?

Imagem fixa na memória. Perturbadora!

Fiquei alguns longos minutos contemplando aquela estranheza e tentando inutilmente recordar. Eu?! Eu sou eu, uma vida definida... E ele, que será que ele tinha, alguma coisa me dizia algo familiar, mas o que seria? “Merda! Como lembrar é tão difícil quando a cabeça está dolorida!” A minha vida sim é que tem sentido neste mundo. Sempre fui uma pessoa resolvida, nunca perdi uma oportunidade boa que pudesse me oferecer o sucesso em meus empreendimentos. Tenho uma família, mulher, filhos e tudo que um homem bem sucedido pode sonhar. Mas, aquele mendigo me enoja... Ficar olhando aquela pessoa me deixou cansado e mais doente do que parecia. Deitar e relaxar poderá fazê-lo ir embora e deixar-me em paz.

“Onde estou?” De repente aquele ambiente se tornou estranho, ambos, eu e o mendigo, estávamos no mesmo espaço, compartilhando de tudo. Todos que ali estavam agiam como se eu estivesse doente, quanto ao outro, ninguém lhe dava atenção. Às vezes parecia que nem o viam ali, jogado, indigente, suplicante por vida ou qualquer coisa do tipo. Não que me importasse, para mim a vida que se tem é a vida que você constrói através de suas íntimas decisões. Aquele sujeito sem identidade era uma dessas pessoas que definem para si uma vida resignada, sem objetivos, portanto, um fracassado. Minha fortaleza era a minha força de conduzir minha carruagem do mundo. Sentia-me o dono do mundo, isto eu me recordava bem. “Onde estou?” Por que esta pergunta do mendigo me perturbava? Eu sabia onde estava, ele, não.

Por que há médicos e enfermeiras a minha volta? Não estou doente! Minha saúde é de ferro. Que história é esta de acidente? Por que enfaixaram a minha cabeça? Ela ainda dói muito... Estas perguntas são minhas e aquele mendigo ri... repete as minhas perguntas e me caçoa. Eu poderia me levantar e enchê-lo de sopapos, mas estou sem ânimo agora. Continua lá, rindo de tudo e de todos. Maldito indigente, seus trajes mais finos são estas roupas de hospital. Hospital?! Isto aqui é um hospital? O que estou fazendo aqui? Pelo jeito é um hospital público, se não fosse, não estaria do lado de um imundo como este. Tenho dinheiro suficiente para estar em um outro hospital, um particular, longe deste animal... Tenho que dar um telefonema. Preciso falar com minha mulher, meus filhos, meu assistente, onde estão eles? Tenho saudades, não consigo me lembrar dos seus rostos, só a deste mendigo. Que maldição é esta? Largado numa cama de hospital ao lado de um ser como este, de quem foi esta imprudência? Quero sair daqui logo!

Eu quero sair!!!!

Por que, de vez em quando, tudo fica escuro em nossa vida? É como se apagássemos a luz e fôssemos dormir depois de um dia muito cansativo. Foi isto que aconteceu, tudo se apagou de repente e não consigo me lembrar de nada. O mendigo... ele ainda estava ali. Pensei que tinha morrido. Maldito! Podia ter morrido mesmo, acho que odeio este homem, se é que podemos chamar este animal de homem. Por que ele ri de mim? Por que este sorriso sem sentido? Contaram alguma piada para ele e eu estava dormindo? Por que ele não diz nada para mim? Talvez pudéssemos estabelecer algum diálogo e eu o diria o quanto me enoja. Pediria que calasse a boca e se mandasse de perto de mim. Mas, quando tento chamá-lo, ele repete tudo que falo e isto me irrita. Se eu me levantar desta cama, vou... vou... vou matá-lo com minhas próprias mãos. Não consigo levantar minhas mãos, estão pesadas como chumbo. Meu corpo está imóvel. Alguém me amarrou?

O médico passou aqui esta manhã. Não entendo o que ele diz... ele me olha com piedade. Lê o meu prontuário, franze a testa, coça a cabeça e resmunga alguma coisa incompreensível com a enfermeira que o acompanha. Depois larga a prancheta e vai ao encontro de outro paciente. Nem olha para o mendigo ao meu lado, que permanece o tempo todo calado desta vez. Senti uma leve ponta de desolação por ele, pois aquele ser parecia invisível. Não que fosse digno de piedade, mas... O abandono deve ser a pior coisa que existe neste mundo. Saber que ninguém mais se importa com você é o fim. Talvez esteja aí a explicação para o suicídio. Tentei chamar o médico, conversar com ele sobre mim, entretanto, não me ouviu. Seguiu seu caminho. Estaria eu num hospital estrangeiro? Por isso não compreendiam meu idioma? Será? Talvez ninguém saiba onde estou! Talvez eu tenha sofrido um acidente e esteja perdido em algum lugar e...

Não consigo definir o tempo aqui. Parece que o dia nunca acaba. O mendigo ao meu lado é o único que ainda sorri para mim. Está ficando mais familiar vê-lo com esta freqüência. Ainda continua abandonado e parece querer que eu me torne seu amigo. Mas, a mania de repetir tudo que digo é insuportável. Será que ele é retardado? Isto! Deve ser um demente largado ou perdido da família. Ele fala a minha língua, mesmo que só repetindo o que digo. Talvez falasse a língua do médico também! Vou tentar uma aproximação...

Tentei! Tentei e tentei... Ele só repetia, repetia e repetia. Que idiota! Não é à toa que foi esquecido, ele é irritante... Vai morrer ali, jogado naquela cama. Eu preciso sair daqui, tenho que ir embora. Estou farto deste lugar, daquele maluco e do médico estrangeiro e sua companheira. Meu telefonema. O celular! Isto! Vou ligar para minha mulher. Não me lembro do número. Meus filhos!... Eles têm celulares? Não me lembro. Meu assistente no escritório, ele tem meu número, por que não me liga? Preciso falar onde estou. Mas, onde estou? Que hospital é este? O médico não compreende o que digo, eu não entendo nada do que dizem. Como farei para sair daqui. Já sei, vou fugir. Tenho que preparar um plano. Tenho...

Tive a impressão de que havia alguém do meu lado. Ele (ou ela) se foi esta noite, na verdade não sei dizer quando foi, só sei que foi... De repente desejei que fosse o mendigo. A primeira coisa que vi foi ele me olhando. Que tédio!

O tempo passa estranho naquele lugar. Não consigo perceber o sol, tampouco a escuridão noturna. Sequer posso ver as estrelas ou a lua. A sensação de imobilidade é muito grande, não consigo definir com clareza. Imagine que você esteja completamente enrolado em cobertores e amarrados firmemente. Junte a isto um cansaço que o impossibilita qualquer movimento. É isto! Isto que estou sentindo! O mendigo só ri. Hoje está rindo com um certo sarcasmo. Que há com ele? O médico está vindo... a enfermeira ao seu lado, como sempre. Está pegando a prancheta com meu prontuário. Mais uma vez ignora o paciente do lado. Ele não existe, é invisível.
Largou o prontuário e adicionou uma etiqueta. Sua imagem se reflete no espelho. Parece estar escrito em português, embora falem outro idioma. Será que consigo ler:

OTIO ROP AMOC ME ETNEICAP
LAICIDUJ OÃÇAZIROTUA. ETNEGIDNI. SONA
.SOHLERAPA SOD OTNEMAGILSED O ARAP

Ainda não consigo...

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