O ESPELHO DO BANHEIRO
(Yratã G. Mendes)
Lá estava ele, o espelho. Não dizia nada, somente apontava a cara cansada que o observava todo os dias no mesmo horário: 6 horas da manhã. O sono não fora compensador e Cronos não teve seu relógio quebrado. Os deuses gregos são meticulosos e emotivos em suas ações, Apolo elevou-se e o Sol apareceu no horizonte.
A imagem daquele rosto distorcido pelas sombras e a sonolência parecia mais nítida. “Será que sou eu?” perguntava-se mais uma vez ao ver que a vida estava passando bem diante de seus olhos e nada podia fazer. “Será que este rosto ainda vai...” reteve-se ao perceber que sua face e seu corpo ainda murchariam como aquela rosa que esquecera na mesa sem cuidados há mais de seis meses. Que desalento! Isto não é nada animador, principalmente quando o espelho parece dizer isto tão silenciosamente.
Ainda estava lá, testemunha ocular de uma vida sem sentido. Via o entra e sai de pessoas de sua vida e as múltiplas caras que se olhavam naquele espelho e não se percebiam além de uma imagem, mas o seu dono não era igual. Ele era diferente... ele se via... ele se esforçava em não se preocupar com tudo que via, porém era mais forte do que ele.
O espelho guardava para si todas as sensações de impotência, envelhecimento, medo, amor, ódio, mágoa, desilusão (fato que desconhecia, pois compreendia a sua realidade), morte, vida, tudo. A frieza com que absorvia os sentimentos era comum à classe especular. O homem nunca poderia caracterizar um ser que absorve sem compreender sentimentos para não sentir, entretanto lá continuava ele, o espelho.
O homem deixou seu rosto de lado e desapareceu por um instante. Ergueu-se com ele molhado e sentiu-se renovado. Como se a esperança estivesse voltando em cada gotícula de água que escorria daquele rosto cansado. Tentava não pensar, tentava não se ver, tentava, então, fugir de sua realidade... tentava não encarar sua imagem no espelho...
Seria uma pessoa comum se não ligasse para estas coisas. Sempre teve complexos com espelhos. Tinha medo desde criança, achava que veria algum monstro ou o próprio demônio naquele portal dimensional, por isso evitava olhá-lo fixamente, principalmente à noite. Certa vez soube que uma mulher teria visto o diabo enquanto se maquiava e, a partir daí, negou-se a olhar no espelho mais do que o necessário. Nunca se adorou no espelho, sua vaidade se limitava a uma olhada para ver se havia pasta de dentes e remela nos olhos. Penteava seus cabelos e percebia pela sombra se estavam todas as mechas no lugar. O espelho não era seu amigo deveras, inimigo número um.
Acordava sempre cedo. Às 6:00 estava de pé no banheiro. Tomava banho e fazia suas necessidades fisiológicas pontuais. Escovava seus dentes, bocejava de sono e ia para o quarto. Claro, olhava-se de relance no espelho e certificava-se de que tudo estava certo. Ia para o quarto. Trocava sua roupa e ia em direção à cozinha. Morava sozinho, seu gênio era muito complicado e suas manias não muito aceitáveis para as mulheres que conhecia. Sua regularidade era insuportável. Era um solitário costumaz.
O café era forte e o gosto das rosquinhas da noite anterior ainda valia a pena. O calor do líquido descia aquecendo sua garganta e o doce das rosquinhas tornavam-no levemente amargo.
Após degustar o café matinal, ia novamente ao banheiro e mais uma vez encarava o espelho esperando alguma previsão fatalista, porém o que encontrava era uma boca salivante cheia de creme dental espumado. Cuspia, enquanto escovava seus dentes... Enxaguou com a água fria, secou-se com a toalha e deu mais uma olhadinha em sinal de despedida.
Era um ritual de 2 horas. Completou-se naquele dia no mesmo horário. O relógio digital piscava: 8:00. Era rotineiro, tão comum quanto o sol nascer por trás dos prédios do bairro onde morava. Saía de seu apartamento olhando para o chão de maleta na mão, não queria ver ninguém, apenas o reflexo e silhuetas lhe satisfaziam a curiosidade. Seu bom dia era um carrancudo sorriso sem graça de canto de boca. Enquanto as pessoas a sua volta se saudavam com largos sorrisos e bons dias, ele se limitava a observar e refletir sobre a falsidade humana. Introspectivamente, apesar de odiar o espelho, pensava nos comentários e na troca de confidências, nas quais seu companheiro refletor dizia que do ponto de referência especular a humanidade era hipócrita e sem sentido. Não compartilhava de sua opinião, mas ouvia com atenção e todas as vezes que via aquela cena pela manhã concordava.
Por que concordava? estariam se perguntando. Por que dava ouvidos àquele que odiava? A verdade é que nunca teve atritos com os vizinhos, entretanto os vizinhos que se saudavam todos os dias da mesma maneira eram os que mais discutiam por motivos fúteis. Portanto há razão na razão que aparentemente não existe.
Saía pela porta do prédio mudo como uma pedra. Seguia até o ponto de ônibus, calado e pensativo. Embarcava, sentava-se nas últimas poltronas e olhava vagamente pela janela. Não eram pessoas que via, era uma quantidade de seres em imagens deturpadas e sem rosto. Não conhecia ninguém que ali caminhava ao lado da janela. Todos em rosto.
Chegava em seu trabalho às 8:40. Alguns, persistentes, diziam-lhe algo parecido com um “bom dia”, outros se limitavam a murmurar qualquer coisa do tipo “que cara insuportável”, mas nada disso o incomodava ou comovia. Nada sentia, estava frio... Aproximava-se de sua mesa, sentava-se. Ajeitou-se na cadeira e olhou para a mesa demoradamente. Nada notou de diferente: papéis contendo gráficos financeiros, pastas amarelas aguardando análise e pareceres e a tela do computador aguardando ser acionada.
A tela preta do computador refletia seu rosto, ainda abatido. Era o espelho! Sua alma gelava toda vez que via sua imagem. Era uma loucura, uma obsessão, uma psicopatia... talvez sim, talvez não. O fato é que não agüentava ouvir a sua imagem divagando sobre o perfil humano das relações inumanas. Finalmente, a coragem apareceu do nada. Apertou o botão “Power” e ligou o computador. A imagem de seu reflexo tagarela parecia, então, sumir lentamente. Tentava resistir, entretanto a bela paisagem do fundo de tela fez desaparecer totalmente o reflexo.
“O dia vai ser cheio!” pensou e suspirou. Pegou os papéis, leu, assinou, digitou e divagou sobre as movimentações financeiras da empresa. Murmurou algumas conjecturas sem sentido e praguejou quando a caneta saltou-lhe das mãos em direção a lugar algum. Alguém, sem rosto, pega o objeto e devolve-lhe. Uma voz suave, toque gentil, cabelos longos, ondulados... Mas o rosto, não via o rosto... Ela... uma funcionária nova... agradeceu rapidamente e voltou a seus afazeres. Parou por um instante e voltou a pensar naquela voz. Voz angelical, corpo desejável, imaginava cada parte e se deliciava, contudo o rosto era igual a todos que via, uma grande figura oblonga sem identificação visual possível... Era como se todos usassem uma máscara branca sem olhos, boca, nariz ou expressão que tornasse possível uma identificação. Era assim que via todo mundo. Somente ele via seu próprio rosto. Somente ele.
O trabalho é a melhor forma de esquecer sua vida. Gastamos nossas energias e angústias da vida no trabalho. É um mundo agitado e diferente. Lá somos pessoas diferentes, funcionais e imprescindíveis. Tem aqueles que não gostam do que fazem e nesse caso o trabalho é um inferno. Mas o trabalho agradável é uma válvula de escape, uma fuga do mundinho doméstico de nossas vidas sem graça. A fuga, fugir de sua imagem, fugir do espelho que reside no banheiro, essa era a intenção. Aquela loucura acabava momentaneamente quando estava no trabalho, a não ser pela tela do computador, nada mais o incomodava.
Havia espelhos por toda parte. Havia imagens suas em todos os lugares, porém aquela multidão que passava tornava-os impessoais e menos confidentes. As pessoas que a ele fitavam não eram intencionais, buscavam atitudes sem sentido como o embelezamento do penteado ou uma simples conferência no visual casual, nada muito particular. Pode ser que todas aquelas pessoas tivessem algo com seus espelhos, pode ser... Entretanto ele tinha uma relação conflituosa. Quantas vezes sonhou (ou imaginou) quebrando aquele espelho em centenas de pedaços, quantas vezes visualizou este voando janela abaixo e tocando violentamente o chão e se evaporando? Nada disso fez. Covardia ou medo de ouvira verdade?
Na verdade todos nós temos medo de ouvir a verdade. Às vezes ela é muito dolorosa. O espelho sabia disso, mas não o poupava. Preferimos a ilusão do que a amarga realidade. A imagem refletida é uma prova disso. Uma crítica mal formulada e desabamos em nosso mundo interior. Muitas de nossas inimizades são construídas na nossa incapacidade de aceitar a verdade. A percepção do erro é algo intrínseco a esta falha de nosso caráter. Vemos aquilo que queremos ver...
O dia vai chegando ao fim e junto dele o expediente. O bolo de papéis diminuiu consideravelmente, o mundo parecia ser tão fácil desenhado em gráficos no papel. A vida era paradisíaca nas imagens do descanso de tela que se perdia em olhar de vez
Tudo ficou mais lento. O escritório estava fechando suas portas. Percebeu que era hora de ir embora para seu mundo. A voz suave soou-lhe mais uma vez e tornou a olhar aquele rosto inexpressivo. Imaginou uma longa conversa com esta mulher (Ineficaz!), sua imaginação terminava no momento dialógico em que ela se propôs a olhar em um pequeno espelho circular no alto do elevador. Ajeitou seus cachos e outros atos incompreensíveis da futilidade. Alguém gracejou e sussurrou algo em seu ouvido. Eles sorriram entre si. No canto observava. O seu desejo cessou repentinamente, a voz suave grasnava e o que parecia belo era feio. Afinal o que era uma beleza? Calculou a volta para casa assim que a porta do elevador se abriu. Todos passavam pela porta e dirigiam-se para a portaria, passavam o cartão magnético com códigos de barras (Identificação razoável para todos aqueles desprovidos de rosto) e iam para suas casas.
O mundo doméstico nada mais é do que nosso íntimo. Em nossa casa a lei que vigora é a nossa vontade. Tentamos fazer dentro dela tudo que não podemos fazer fora. O caos que lá reina é a nossa representação da organização universal. Assim tudo funciona quando se vive só. Seja numa prateleira organizada, seja nos livros empilhados de qualquer modo, tudo funciona do jeito que nós desejamos.
O trajeto de volta era o mesmo. Tudo que via parecia o inverso do que viu pela manhã (até mesmo as pessoas). Puxou a corda da campainha e desceu no ponto próximo de seu prédio. Ao aproximar-se deste, sentiu um desalento... como encarar o mundo que lhe dizia a verdade em capítulos seqüenciados dia após dia de sua existência? Como?
Subiu, olhou longamente para a porta de seu apartamento. Tirou as chaves (sentiu vontade de fugir, de não entrar lá), olhou para o corredor, primeiro para o lado direito, depois para o lado esquerdo. Desejou que alguém abrisse a porta e o convidasse a entrar, mas ninguém abriu... Nada aconteceu. Então, sentiu obrigado a virar a chave, abrir a porta e entrar. Acionou o interruptor e a luz se acendeu. Deixou a maleta no sofá e dirigiu-se ao banheiro.
Abriu a porta e parou em frente ao espelho disposto a enfrentá-lo em sua covardia. Gesticulou numa vaga tentativa de ligar a coragem como se liga a luz e nada conseguiu. O espelho o mostrava o quanto era impotente, o quanto era incapaz de enxergar o mundo a sua volta mas divagou sobre a dor que sentia em ver o que os outros não via. “O gênio da lâmpada” parecia dar-lhe o caminho... O que queria ver? O que não queria enxergar? O queria perceber? O que não queria olhar? Por que tantas indagações em sua mente? Era isso mesmo que queria? Um estalo... Escuridão e solidão... Silêncio...
Acordou em sua cama entre lençóis verdes, cobertor azul e listras vermelhas. O travesseiro macio o convidava a dormir mais um pouco, perdeu o horário. Levantou-se, bocejante, chegou ao banheiro e lavou o rosto. Olhou para o espelho e viu... nada... inexpressivamente nada. Escovou os dentes, penteou os cabelos, sorriu largamente e sentia-se bem, inexpressivamente bem. Tomou o café e foi trabalhar. Naquele dia os vizinhos o perceberam de modo estranho, quiseram não compreender, mas algo de diferente estava em seu rosto, uma sensação inexpressiva de vida, uma euforia desigual.
No trabalho a voz suave lhe cumprimentou e o seu rosto... seu rosto estava diferente. É impreciso definir o que estava diferente. O rosto dele, o rosto dela, se combinavam em olhares... estranhos olhares... Uma leve conversa sem sentido... toque de mãos, convite para um café durante o expediente. Ele mais solto, ela mais encantada. Ele... ela... a vida sem nexo. O mundo corria a sua volta e a verdade ficava cada vez mais perdida em seu íntimo. Escondida em seu inconsciente...
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